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O que falta ao turismo em Angola

Foram divulgadas recentemente as linhas orientadores daquilo que será o futuro Plano Director do Turismo. As metas são ambiciosas. Pretende-se que o turismo represente 7% do PIB (5,5 mil milhões de dólares) e que se atraia 5 milhões de turistas até 2020. É positivo definir fasquias altas. Isso revela ambição e ousadia. É positivo ter uma atitude optimista (com foco nas soluções e não nos problemas). É positivo ouvir os agentes do sector (incluindo os privados) de todo o território nacional (esse esforço, ao que se diz, já está em curso). Mas, como é sabido, os desafios a vencer são enormes. E como tantas vezes sucede em Angola, o problema não está no diagnóstico, na estratégia, ou nos planos, mas, sim, na execução.
Os desafios começam logo à entrada. Um estudo recente da McKinsey demonstra que, à escala mundial, existe uma correlação entre a facilidade na emissão de vistos e o grau de desenvolvimento turístico de um país. Ora nesse capítulo Angola, como se sabe, “tá male” (como diria o Puto Português). A segurança é obviamente importante (até para calar os exageros de alguma imprensa internacional sobre a criminalidade em Luanda). Mas quem entra em Angola pelo aeroporto da capital depara com filas desesperantes no controlo de passaportes. Cá fora os agentes parecem estar mais interessados em multar quem circula, do que em proteger, ou ser prestável, aos visitantes. Quem já está no pais e faz um voo interno demora mais tempo nas formalidades do que na viagem de avião. Viajar de carro é ainda pior. A estrada para o Sul, por exemplo, tem barreiras policiais que quase se atropelam umas às outras.

Talvez o desafio mais gigantesco sejam os preços. Ninguém, de bom senso, quer ir de férias para Tóquio, Genebra ou Zurique, cidades que estão no top das mais caras do mundo. Porquê então Angola (que nos dois últimos anos encabeçou essa lista)? Para mais quando a concorrência no continente é forte. Quem deseja destinos de praia tem Cabo Verde (onde o turismo representa 44% do PIB), Moçambique ou São Tomé. Quem deseja natureza tem a vizinha Namíbia, a poderosa África do Sul, o Quénia ou o Botsuana. Todos com preços bem mais competitivos.

A boa notícia é que o parque hoteleiro aumentou muito — em quantidade e qualidade (segundo as estatísticas do sector já há 136 hotéis, 52 dos quais acima de três estrelas). Mas também aqui há problemas. Os preços ainda são altos. E, em muitos casos, o serviço deixa a desejar. Como dizem os ingleses, o “diabo está nos detalhes”. Um exemplo prático. Estivemos recentemente, em Malanje, num hotel moderno, onde não havia água de manhã. O pior é que ao questionarmos o funcionário ele respondeu com uma indiferença desarmante que o problema seria resolvido em breve. Cansados de esperar tomámos um pequeno-almoço “internacional” (no sentido em que não havia um único produto local à disposição). No final da manhã percebemos o óbvio: o problema nunca se resolveria. É difícil ver o lado positivo deste episódio que terminou em check-out. A solução é a do costume: investir em formação. Abrir escolas de turismo em todo o território. Enquanto a procura de quadros qualificados for superior à oferta sucederá aquilo que os empresários hoteleiros se queixam: depois de meses a formar pessoal, eles saem à primeira proposta mais alta.

Falta também valorizar o património histórico, natural e cultural (que é muito rico e variado). E criar mais ofertas de lazer em cada província para que os turistas permaneçam mais tempo e gastem mais dinheiro. Uma queixa comum entre quem as visita é que não há oferta de produtos locais (especialidades regionais, artesanato ou até os irritantes souvernirs). Criar essa oferta significaria não só mais receitas para as províncias como, sobretudo, mais postos de trabalho. Construir unidades hoteleiras, por si só, não chega. Basta recordar o CAN, que foi excelente para a promoção de Angola como um país que sabe organizar grandes eventos, mas um verdadeiro “pontapé ao lado” em termos de aproveitamento turístico.

Faltam também mais e melhores acessos rodoviários. O Lubango, por exemplo, é um dos destinos mais promissores de Angola. A província fez um bom trabalho em melhorar os acessos aos seus principais ícones turísticos (Tundavala, Cristo-Rei, Senhora do Monte ou serra da Leba, embora esta última tenha cedido às últimas cheias). Mas como chegar lá? A nova estrada do Huambo não está terminada. A de Benguela, um ano depois, está repleta de buracos. A ponte que fazia a ligação ao Namibe, ruiu.

Perante este quadro a conclusão parece óbvia: o potencial turístico existe, mas falta planeamento, acções coordenada e visão de longo prazo. Talvez fosse aconselhável apostar-se, numa primeira fase, no turismo interno – falamos não só dos angolanos que estão desejosos de redescobrir o seu país, como dos expatriados e dos turistas de negócios. Só depois, numa segunda fase, poderemos conquistar os ambicionados milhões de turistas internacionais. Uma coisa é certa: quanto mais cedo se começar, melhor. A África do Sul (veja artigo nesta edição) já leva uma década de avanço.

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